Eu devia te odiar

EU DEVIA TE ODIAR
por Thiago de Góes
”Eu devia te odiar. No entanto, só sei te amar” (Reginaldo Rossi)


Lembrava-se dos dizeres escritos a giz colorido na parede do Centro Acadêmico da faculdade: "nem mesmo o ódio é capaz de vencer o desejo". Sempre discordara da frase, que ainda jazia perdida entre inúmeras outras de cunho político ou poético, naquela parede suja que lhe invadia a memória.

Alguns poucos minutos após o gozo, mirava o olhar em direção ao espelho no teto, certamente a perceber as imperfeições que o tempo lhe atribuíra ao corpo. Mantivera as meias nos pés, como de costume, apesar das queixas de Heloísa.

 

Era verdade que ela o traíra, apesar de nem desconfiar que já fora descoberta em seu pecado. E ainda agora, após uma relação intensa, seria o último momento em que pensaria nisso. Deliciava-se ao sabor das águas quentes, que desciam do chuveiro elétrico, acariciando sua pele. Antes de ensaboar-se, esboçou uma pequena rubrica na parede de vidro do boxe, já embaçada pelo calor do banho.

 

Cantarolava uma canção romântica, enquanto seu companheiro apanhava uma cerveja preta no frigobar. Ele tinha agora a exata noção do que precisava fazer. Sabia que sentiria remorsos, mas no fim a certeza de que fizera algo justo o consolaria. Afinal, a imagem de sua namorada fazendo amor com um estranho lhe alfinetava a consciência de tal forma que a vingança configurava-se como a mais normal e inevitável das decisões.

 

Ao lado da cama, uma faca. Mais na frente, jogadas numa mesa redonda, estavam as roupas de ambos. Observou as próprias lágrimas, refletidas na faca. A conta viera nas mãos de uma mulher um pouco idosa, que fingia não vê-lo. Aliás, todos fingiam alguma coisa o tempo todo. Quem sabe a vida não seria apenas uma invenção?

 

Ao redor da rubrica, já um pouco apagada, Heloísa desenhou um coração, sobre o qual lhe penetrou poderosa flecha. Imaginou que as gotículas que escorregavam no vidro poderiam representar o sangue derramado. Lembrou-se por fim de sua noite de amor com o desconhecido, tentando achar razões para que houvesse permitido acontecer tamanha ousadia.

 

É certo que a lembrança a deixou excitada. Aos poucos, já podia sentir a sensualidade que brotava de seu corpo e as chamas de desejo que lhe escapavam das entranhas. Encostou-se na parede, abriu levemente as pernas e masturbou-se lentamente. Chamou pelo namorado. Não houve resposta. Chamou novamente. Silêncio.

 

Decidiu então ela mesma ir ao encontro do rapaz. Abriu a porta do banheiro e dirigiu logo o olhar em direção à cama. Ninguém. Adentrou um pouco mais no quarto e viu mesmo que não havia ninguém. Chamou umas três vezes pelo nome do namorado, gritando na última. Olhou na garagem e viu que o carro não mais estava lá.

 

O pânico já começara a instalar-se quando ela percebeu que suas roupas também não estavam em lugar algum. Procurou por todos os buracos do quarto e não havia sinal de suas vestimentas. Chorou. Como sairia desta situação? Sozinha, nua e sem dinheiro. Então percebeu o bilhete bem perto das camisinhas usadas, no chão à frente da cama: "Nem mesmo o ódio é capaz de vencer o desejo. Adeus!".