O verdadeiro brega é muito, muito libertador...
Fiquei emocionado com o depoimento de Juliana no blog Bregorama. Trata-se de um verdadeiro manifesto brega, ressaltando o caráter libertador, autêntico, anárquico e até antropofágico desta poderosa filosofia de vida. Transcrevo o trecho mais emocionante e aconselho aos leitores dos Contos Bregas lerem o texto completo lá no Bregorama.
"Agora, brega DE VERDADE não compra bolsa Louis Vuitton. Nem verdadeira nem paraguaia. Faz a sua própria, escrita LUÍ VITTÔUM DI PARRI! O brega do bem é anárquico, antropofágico no melhor estilo semana de 22: come, digere a informação e solta, em troca, uma bela risada, porque a alegria é a prova dos nove no reinado de Pindorama. É tirar sarro da ostentação. É uma das melhores maneiras de se dar um berro para o mundo: EU SOU EU MESMA, EU SOU DIFERENTE, EU NÃO SOU MAIS UMA! É um protesto contra a massificação, o poder da mídia, da moda - é criar a própria moda, mais a ver com sua própria personalidade, com humor - e paradoxalmente, elegância, porque todo o conjunto é coerente - mesmo que você descombine TODAS as estampas entre suas peças de roupa! O verdadeiro brega é muito, muito libertador".
Na voz de um, qualquer música chique vira brega. Na voz do outro, qualquer música brega vira chique. Reginaldo Fossi e
Caetano Zeloso são os dois expoentes da música popular brasileira que representam “aparentemente” padrões estéticos extremamente opostos.
Quem já ouviu os arranjos refinados e recheados por solos de violinos adaptados por Zeloso para canções até então ditas popularescas sabe que para ele não existe nada mais chique que a música brega.
Quem já ouviu clássicos da música internacional cantados pela voz rasgada e debochada de Fossi sabe que para ele não existe nada mais brega que a música chique.
A redação de Contos Bregas recebeu os dois astros da música brasileira para esta entrevista que nos deixou divididos entre a breguice do chique e a chiqueza do brega.
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Contos Bregas – Para vocês, o que é brega e o que é chique?
Reginaldo Fossi – Olha, só no Brasil é que inventaram essa coisa de brega e de chique. Você canta Yesterday, que não passa de uma tremenda dor de cotovelo, e é chique só porque está em inglês. Se fosse em português era o maior bregão da vida. Então não tem porque essa coisa de tachar uma música disso ou daquilo. Eu não ligo para isso. Eu canto é pro povo. O povo é quem sabe das coisas...
Caetano Zeloso – Mas o Fossi está com a razão. É isso mesmo que ele disse aí e muito mais, entende? Quando eu gravei Vicente Celestino no disco da Tropicália, eu já sabia da importância criativa da estética brega na música popular brasileira. Eu sabia disso já. Eu sempre soube disso. Agora, esses falsos intelectuais de araque, metidos a críticos sabichões, é que não entendem absolutamente nada dessa coisa toda. É contra essa hipocrisia chula que eu não vou parar de gritar. O povo brasileiro é muito maior do que qualquer coisa que possa aparecer em qualquer crítica de qualquer idiota letrado!
Contos Bregas – O que o povo brasileiro gosta de ouvir então?
Reginaldo Fossi – Eu vou dar um exemplo: eu poderia ter escrito o Garçom dizendo assim: “Garçom, eu sei que estou lhe aborrecendo, mas todo ébrio torna-se inconveniente, corajoso e com toda razão”. Mas o povo ia saber que não era autêntico, sabe? Então, bicho, não tem porque ficar reinventando a roda, sabe? Caetano deve saber disso e está aqui pra não me deixar mentir...
Caetano Zeloso – E eu digo mais, Fossi. Nós temos que acabar com essa história que a sigla MPB é uma nomenclatura para uma música de elite que fosse supostamente superior a qualquer outra vertente musical. Isso me incomoda profundamente, para quem não sabe. Profundamente! É um tremendo absurdo rotular fulano de tal de MPB, querendo transparecer que se trata de uma grife sonora. As pessoas que defendem isso merecem prisão perpétua, sinceramente. Prisão perpétua...
Contos Bregas – Ouvindo assim vocês falarem, dá até para pensar que vocês não seguem linhas opostas musicalmente, tamanha é a afinação entre seus discursos... Algum de vocês seria capaz de gravar um disco só com canções do outro?
Caetano Zeloso – Mas nós estamos muito mais afinados do que você pensa. Eu vou dizer aqui em primeira mão que o próximo projeto de Caetano Zeloso é gravar um disco e DVD ao vivo com Reginaldo Fossi Será uma grande revolução e um enorme sucesso. As pessoas vão se dar conta de que há mais coisas entre o brega e o chique do que sonha nossa vã filosofia; e de que não há como resistir à irreverência e autenticidade do que é aparentemente grotesco e escatológico, porque não há nada mais brasileiro do que isso tudo. O Brasil é brega. Totalmente brega e isso é lindo! Chacrinha já sabia disso. O velho guerreiro já sabia disso. Que Deus o tenha...
Reginaldo Fossi – Olha, eu só vou dizer uma coisa: quando você ouvir a minha versão para Sampa, você vai cair pra trás. Porque essa música retrata o drama do meu povo nordestino, sabe? Um povo sofrido que vai para a cidade grande em busca de uma vida melhor... Então, bicho, eu gravei Sampa com toda emoção que podia. A Roberta Miranda chorou quando ouviu. Sérgio Reis foi aos prantos. É uma loucura...
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Contos Bregas – Eu estou pasmo. Esse vai ser o grande furo do ano... Vocês já têm alguma estratégia de divulgação?
Reginaldo Fossi – Na verdade, eu sou um cara que não preciso desse negócio de divulgação, sabe? No meu show não tem mulher mostrando a bunda e eu nunca deixei de fazer sucesso. Sou eu, minha banda, o povão e nada mais. O público ama o Reginaldo Fossi. Michel Jackson na minha frente é uma merda. Eu requebro mais que a Carla Peres. Sou mais sensual que a Madonna. E mais bonito que o Leonardo Di Caprio!
Caetano Zeloso – Por falar nisso, eu devoraria o Leonardo Di Caprio... Ou não...
Contos Bregas – Bem... mas vamos mudar de assunto! Como vocês encaram a questão da traição?
Caetano Zeloso – Eu diria que a infidelidade sempre esteve presente em todas as culturas. Ou para ser mais exato, é uma coisa essencialmente humana. Agora, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é... Eu só espero que eu não venha a ser novamente. Mas se for, paciência... Nessas horas, nada melhor do que ouvir Reginaldo Fossi...
Reginaldo Fossi – Olha, tem um ditado aqui no Nordeste que diz que todo castigo pra corno é pouco. E é verdade. Homem tem que saber cuidar da mulher. Homem é tudo frouxo. Vive chifrando, mas no dia que leva um cano já quer brigar, bater, matar. Não pode... Mulher é pra ser tratada com carinho. Sempre. Se não abre espaço pra concorrência...
Contos Bregas – Pra finalizar, como cada um definiria a trajetória musical do outro?
Reginaldo Fossi – Esse cara é uma sumidade. Você chega lá na Bahia, sabe, no Rio de Janeiro ou São Paulo, em qualquer lugar do Brasil o cara é respeitado. Então a música brasileira, bicho, deve muito a esse cara!
Caetano Zeloso – Reginaldo Fossi representa o que de melhor tem na cultura brasileira e especialmente na cultura nordestina. Eu invejo imensamente sua capacidade de comunicação e empatia com o público. O mundo precisa conhecer Reginaldo Fossi!
FIM
Eu devia te odiar
EU DEVIA TE ODIAR
por Thiago de Góes
”Eu devia te odiar. No entanto, só sei te amar” (Reginaldo Rossi)
Lembrava-se dos dizeres escritos a giz colorido na parede do Centro Acadêmico da faculdade: "nem mesmo o ódio é capaz de vencer o desejo". Sempre discordara da frase, que ainda jazia perdida entre inúmeras outras de cunho político ou poético, naquela parede suja que lhe invadia a memória.
Alguns poucos minutos após o gozo, mirava o olhar em direção ao espelho no teto, certamente a perceber as imperfeições que o tempo lhe atribuíra ao corpo. Mantivera as meias nos pés, como de costume, apesar das queixas de Heloísa.
Era verdade que ela o traíra, apesar de nem desconfiar que já fora descoberta em seu pecado. E ainda agora, após uma relação intensa, seria o último momento em que pensaria nisso. Deliciava-se ao sabor das águas quentes, que desciam do chuveiro elétrico, acariciando sua pele. Antes de ensaboar-se, esboçou uma pequena rubrica na parede de vidro do boxe, já embaçada pelo calor do banho.
Cantarolava uma canção romântica, enquanto seu companheiro apanhava uma cerveja preta no frigobar. Ele tinha agora a exata noção do que precisava fazer. Sabia que sentiria remorsos, mas no fim a certeza de que fizera algo justo o consolaria. Afinal, a imagem de sua namorada fazendo amor com um estranho lhe alfinetava a consciência de tal forma que a vingança configurava-se como a mais normal e inevitável das decisões.
Ao lado da cama, uma faca. Mais na frente, jogadas numa mesa redonda, estavam as roupas de ambos. Observou as próprias lágrimas, refletidas na faca. A conta viera nas mãos de uma mulher um pouco idosa, que fingia não vê-lo. Aliás, todos fingiam alguma coisa o tempo todo. Quem sabe a vida não seria apenas uma invenção?
Ao redor da rubrica, já um pouco apagada, Heloísa desenhou um coração, sobre o qual lhe penetrou poderosa flecha. Imaginou que as gotículas que escorregavam no vidro poderiam representar o sangue derramado. Lembrou-se por fim de sua noite de amor com o desconhecido, tentando achar razões para que houvesse permitido acontecer tamanha ousadia.
É certo que a lembrança a deixou excitada. Aos poucos, já podia sentir a sensualidade que brotava de seu corpo e as chamas de desejo que lhe escapavam das entranhas. Encostou-se na parede, abriu levemente as pernas e masturbou-se lentamente. Chamou pelo namorado. Não houve resposta. Chamou novamente. Silêncio.
Decidiu então ela mesma ir ao encontro do rapaz. Abriu a porta do banheiro e dirigiu logo o olhar em direção à cama. Ninguém. Adentrou um pouco mais no quarto e viu mesmo que não havia ninguém. Chamou umas três vezes pelo nome do namorado, gritando na última. Olhou na garagem e viu que o carro não mais estava lá.
O pânico já começara a instalar-se quando ela percebeu que suas roupas também não estavam em lugar algum. Procurou por todos os buracos do quarto e não havia sinal de suas vestimentas. Chorou. Como sairia desta situação? Sozinha, nua e sem dinheiro. Então percebeu o bilhete bem perto das camisinhas usadas, no chão à frente da cama: "Nem mesmo o ódio é capaz de vencer o desejo. Adeus!".
Garçom x Waiter
No veraneio de 2000, fui ao show de Reginaldo Rossi, no Recanto do Garcia, um excelente restaurante próximo à Praia de Cotovelo, litoral sul de Natal. Foi o melhor show dele que eu já fui. Ele cantou no chão, pois a platéia estava "muito distante". "Quero uma escada agora", ordenou o Rei. Ele desceu e fez um show cantando várias músicas que ele não canta com tanta freqüência, inclusive a música de Anita, "ne me quitte pa", que na voz dele ficou massa. Devia ter ido a versão dele pra série da tv.
Mas vamos para o destaque. No final do show, ele tava dando autógrafo e eu fui pedir o meu. Aí eu aproveitei pra dizer que sabia CANTAR GARÇOM EM INGLÊS. Não deu outra: assim que ele terminou a seção de autógrafos, se dirigiu à platéia e anunciou que havia um CORNO AMERICANO que cantaria Garçom em inglês.
Dito e feito. Desafinei pacas, mas todo mundo aplaudiu efusivamente... Segue a letra:
Waiter
Waiter, here on this bar table
You're tired of listening
To hundreds of love stories
Waiter, in the bar everyone is equal
My case is just another one, it's banal
But pay attention, please
See, my great love
Is getting married today
And sent me a letter to tell me
Leaving my heart in pieces
And to ease the sadness,
only a table of a bar
I want to drink all
I'm getting drunk
If I fall asleep
Lay me down on the floor
Waiter, I know I am
getting on your nerves
But all drunks become pests
Bully, and are always right
Waiter, but all I want is to cry
I'm going to pay my bill
So I ask your attention