Contos

Um conto erótico de carnaval

Esse é um trecho do meu conto Arma de Vingança, inspirado e epigrafado pela canção homônima de Carlos Alexandre, cujo refrão diz “Eu fui usado como arma de vingança para fazer mal ao seu namorado”.

 

Além de conto brega, é conto de carnaval e conto sensual.

 

Trecho do conto Arma de Vingança

por Thiago de Góes

 

Eu e ela nos conhecemos num baile de carnaval, ano passado. Ela estava maquiada de gatinha, mas dava pra perceber a tristeza estampada no seu rosto. De longe, vi que algumas amigas consolavam a garota. Elas balançavam o corpo ao som das marchinhas tocadas pela banda de metais. Faziam caras e bocas de alegria, motivando a colega.

 

Eu já estava bêbado e não tive muito receio de me aproximar e jogar uma cantada qualquer, que não merece a lembrança. Não importa mesmo o que dissemos. Apenas o que vimos, apenas o que sentimos, apenas o que fizemos. Triste e selvagem, a felina chorava entre as serpentinas. Lembro do encontro das mãos. Apertei com força e puxei a gata para perto. Ela resistiu.

 

“Sua namorada não vai gostar”. Eu não tinha namorada. Eu não tinha compromisso com ninguém, a não ser com aquele momento mágico que me entorpecia a consciência. Não me restava nada mais a fazer, além de insistir infinitamente. Se fosse preciso, eu venceria pelo cansaço, nem que o mundo fosse pelos ares.

 

Eu precisava tocar naquele rosto, com a maquiagem desbotada pelo sol e lágrimas. Então apertei a mão dela com muito mais força e não disse nada mais. Apenas foquei minha visão naqueles olhos perigosamente tristes. E não havia mais carnaval. Eu e minha felina agora tínhamos muito mais do que sete vidas. Na verdade, éramos imortais.

 

Lembro que agora caminhávamos pela rua em busca do carro dela, que estava distante num terreno baldio e suspeito. Nós éramos totalmente desconhecidos, mas confiávamos um no outro, sem nos questionarmos por isso, em momento algum. Ela deu partida no carro. As coxas claras e macias ficaram mais duras quando o pé pisou na embreagem. Senti vontade de mordê-las. Senti vontade de beijá-las. Senti vontade de lambê-las.

 

Nós vamos para onde? Para qualquer lugar onde conseguirmos chegar. Loucura. Era madrugada e ela parou no sinal vermelho. Minha mão pulsava entre suas pernas e ela arfava e não sabia o que fazer. Disse apenas “eu não agüento mais” e retirou a calcinha por baixo da saia. Deu sinal verde e ela não teve condições de seguir em frente. Quando nós percebemos um velhinho nos observando no carro ao lado, fomos obrigados a partir. Depois ela também pegou em mim, com força, e já estava mais duro que a marcha. O carro ia devagar, cambaleando para um lado e para o outro. Variava de velocidade, ao sabor dos gemidos e sussurros. Nós chegamos num motel e não saímos do carro. O banco arriado. A porta da garagem aberta...

 

 

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E não se esqueça: De perto, ninguém é chique!

O casamento do Silêncio e da Escuridão

Era uma vez o Silêncio. Havia muito tempo, andava triste. Não gostava muito de sair. Sentia-se deslocado nas ruas, nos bares, nas baladas, no meio de tantos ruídos.

 

As pessoas, por sua vez, queriam distância do Silêncio. Alguma coisa nele metia medo. “Ele sabe demais”, pensavam uns. “Esconde muita coisa”, diziam outros. Mas ninguém queria saber o que o Silêncio tinha para dizer.

 

É verdade. O Silêncio era um homem solitário...

 

Uma noite, porém, ele esbarrou na Escuridão. Inebriado, ficou sem palavras. Trocaram sorrisos, olhares e seguiram de mãos dadas. O Silêncio e a Escuridão formaram, pois, belo casal.

 

“Por que você gosta de mim?”, perguntou-lhe o Silêncio, em pensamento. Ela ouviu.

 

“Porque você está muito além das palavras, e não se esconde por trás delas; porque você me deixa sentir seus pensamentos; porque você não se deixa levar pelos impulsos do mundo; porque você é prudente; porque você entende as magias do tempo; porque você é pura essência; porque seus olhos nomeiam o inominável; porque, ao seu lado, eu sou mais eu, e me conheço ainda mais; porque sua presença me basta; e principalmente porque você, do seu jeito, me diz muito mais do que eu posso ouvir”.

 

“E você? Por que gosta de mim?”, perguntou-lhe a Escuridão. Em pensamento, ele respondeu.

 

“Porque você está muito além das aparências, e não se esconde por trás delas; porque você é maior do que si mesma; porque embora não saiba exatamente onde você realmente está, sinto você em mim; porque você despiu-se das cores e deixou-me ver sua nudez invisível; porque você absorveu todas as belezas do mundo numa só; porque você não se deixou levar pela vaidade; porque, ao seu lado, eu me sinto em casa; porque você não tem o que esconder; e principalmente porque você, do seu jeito, me mostra muito mais do que eu posso ver”.

 

O Silêncio e a Escuridão casaram-se e tiveram um filho, a quem deram o nome de Infinito.

 

Eles todos viveram felizes para sempre...


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E não se esqueça: De perto, ninguém é chique!

Conto da queimada ou da carimba

Morreu...

 

De fato, muito forte. A bolada. Pudera! Você viu a careta? Parecia um monstro. A bola “de fogo” nas mãos. Pra lá, pra cá. Pegando impulso, pegando raiva. Esticou-se feito catapulta. E disparou a bomba... Explodiu. Acima dos seios. Pobre da outra. Ficou sem ar, coitada. Tanto que tentou. Encaixotar a bola, o tiro, a bomba. Mas não conseguiu... De fato, muito forte. A raiva!

 

... a exibida...

 

É sim. Isto é verdade. Sabe que é bonita. Sabe que é linda. Sabe que arrasa. Quarteirões por ela. Por que não pegou? Merecia! Mas dá voltas, o mundo. Aqui se paga. Vai ter revanche. Tem que ter.

 

... que eu queria, desejaria...

 

E como! Morena sapeca. Menina atrevida. Garota safada. Covinhas fatais no sorriso de ninfeta. Ah se fosse minha! Quem sabe um dia. Areia muita, mas viagens mil. Quantas for preciso. Não paga, sonhar. Não paga...

 

... e se voltar, leva bolada...

 

E se vier (pra mim), não sobra nada!

 

... e bem na cara!

 

E bem na boca...

De fato, muito forte. A paixão!
 

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Conto da gata sem boca

É verdade, aconteceu. Lembro como se fosse hoje. Faz tempo...

 

Tocou pra sair. Nós, cansados e famintos. Antes da fuga, a professora na porta.

 

“Ninguém sai daqui, antes de esclarecermos uma coisinha!”.

 

Tem ladrão na sala. Sumiram papéis de carta da menina da primeira fila. Aqueles de que mais gostava. Da gata sem boca, principalmente. Ela quer saber quem foi, a professora. Em pé no quadro negro, a menina, cabeça baixa. Não diz nada.

 

Entre nós, o ladrão. Há quem saiba. Mas não diz. Ninguém fala. Primeira vez não é. Outro dia, sumiram figurinhas do mudinho. Quem de nós será? Há quem pense que fui eu?

 

“Enquanto não aparecer o espertinho, ou a espertinha, ninguém sai daqui!”.

 

A fome na barriga. A combi não espera muito. Eu não posso perder a combi. Papai não pode me buscar. Mamãe também. Só de noite.

 

“Seja quem for, apareça logo. Será melhor para todos”.

 

Acho que foi Juninho. Não tenho certeza. Ele é muito sonso. Vez em quando, briga comigo. Já foi pra diretoria. Varias vezes. Gosta de confusão. Foi sim. Foi ele! Só pode ter sido ele. Mas eu não vi. Não posso provar. E se não foi ele?

 

E todo mundo calado, feito gata sem boca. Muda, sumida.

 

Até que deu-se por vencida, a professora.

 

E assim foi que a menina, que perdeu a língua, perdeu a gata, que perdeu a boca...

 

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Conto da caverna do dragão

Antes de sair para a missa de sétimo dia, a mulher encontrou esta carta, que jazia perdida embaixo da cama de casal.

 

Minha querida Uni,

 

Eu já não tenho muito tempo. Estou morrendo. Em breve, quem sabe, poderemos nos encontrar.

 

Escrevo mais por necessidade, pois não sei se você receberá o conteúdo desta carta. Em todo caso, outro dia sonhei com o pequeno mago, nosso grande mestre. Ele me disse para dizer tudo o que jamais havia dito. E depois desapareceu, como costumava fazer em nosso tempo.

 

Perdão, Uni! Perdão por nunca ter falado sobre você com ninguém deste mundo, além de nossos amigos. Sabe, as pessoas daqui não acreditam em unicórnios...

 

Perdão por não ter tido forças de me livrar dos braços de nossos amigos, que me impediam de trazê-la para o lado de cá, quando o portal que separava nossos mundos já estava quase se fechando.

 

Eles tinham medo de que eu preferisse ficar com você. Sabe de uma coisa? Eu preferia mesmo. Apesar de tudo, tenho muita saudade do que vivemos naquele mundo. Mesmo dos perigos, das criaturas repugnantes, dos dragões e vingadores.

 

Uni, acredite em mim. Eu não queria ter voltado pra casa...

 

Antes de adoecer, visitei o local onde fomos tele-transportados para seu mundo. O parque já não estava mais lá. Procurei você por todos os cantos. Procurei por outro portal. Mas nada aconteceu.

 

Se o meu tacape mágico ainda estivesse comigo e ainda tivesse os poderes de outrora, eu racharia o mundo no meio, para que ele ficasse igual meu coração partido.

 

Até logo, Uni!    

 

A mulher mostrou a carta ao psicanalista. Delírios que quem se aproxima da morte, disse ele.

 

Mas, pela manhã, ela teve a impressão de ter visto chifres de unicórnio, entre as bromélias do jardim...


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Conto da final do panamericano de basquete 1987

Eis que, numa noite insana, confrontaram-se a sabedoria conformada do irmão mais velho e a esperança ingênua do caçula.

 

Aquele não se postou à frente do aparelho televisor da sala de estar. Este, sim. Aquele não fechou a mão, posicionando o dedo “cata-piolho” entre o “maior de todos” e o “fura-bolo”. Este, com muita força. Aquele já não cria no impossível. Este, ainda...

 

“Não adianta torcer. Nós não temos chance alguma”, disparou o irmão mais velho.

 

O caçula não deu bolas. Sem desfazer a figa um só momento, acompanhou a apresentação dos jogadores da equipe verde e amarela e dos estrangeiros.

 

“Esqueça! Foram eles que inventaram o basquete. Como podemos ganhar deles?”.

 

Como podemos? O placar se alarga cada vez mais. O caçula apenas conta quantos pontos separam os inventores dos sonhadores. Números que aumentam, mais do que diminuem. A cesta adversária parece menor que a nossa. O caçula força para não chorar.

“Não fique triste. Nós estamos fazendo muito bonito. Em nosso lugar, ninguém faria melhor que nós. Mas ganhar deles é impossível! Eles são mais fortes, mais altos, mais ágeis, mais precisos”.

 

Intervalo entre o primeiro e o segundo tempos. O caçula não perde a esperança.

 

“O jogo não acabou. Nós vamos ganhar. Você vai ver!”.

 

A esperança do garoto repousava naquele jogador que diziam ter a mão santa. Ele é um craque, pensou o garoto.

 

“Parece que basta rebolar a bola pra cima, que ela cai direitinho na cesta”.

 

Mais três pontos para a equipe verde e amarela. O time está motivado. A figa da mão direita prende o sangue do “cata-piolho” do caçula, deixando-o avermelhado. Idem na mão esquerda. Um rebote defensivo. A equipe está motivada. O caçula olha para o irmão mais velho, com um sorriso malicioso. Um rebote ofensivo. Mais três pontos. A diferença do placar diminui.

 

“Não gaste sua mente. Isto é só uma reação passageira. Logo, logo, eles voltam ao normal”.

 

Mas os caras não voltaram ao normal. Nós é que estávamos anormais. Lances livres. Ele não erra. Converte o primeiro. Ele não erra. Converte o segundo. Ele não erra. O placar diminui. O caçula em pé com as duas figas. De repente, mais três pontos para a equipe verde e amarela. De repente, falta apenas meia dúzia de pontos para o empate. De repente, o impossível pode acontecer. De repente, liberta-se o grito da esperança. De repente, libertam-se os pulos da esperança.

 

“Estamos na frente! Estamos na frente! Estamos na frente!”.

 

O caçula sente os pelos de seu corpo arrepiarem. A intensa alegria com que comemora cada cesta impede-o de ver o semblante emocionado do irmão mais velho.

 

De repente, o impossível acontece! De repente, o impossível materializa-se em santas lágrimas e abraços e pulos numa quadra mágica.

 

Imitando um pequeno e teimoso personagem de desenho animado, o caçula repete incansavelmente para o irmão mais velho:

 

“Mas eu te disse! Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse...”.

 

Chorando, ele apenas responde:

 

“Eu sei...”

 

 

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Chutando o balde

O balde, coitado. Não tinha nada a ver com a história. Estava lá, quieto no seu canto, juntando os pingos da goteira.

 

Mas o balde, coitado, que não tinha nada a ver com a história, não sabia que cada pingo era uma dor, uma flecha, uma facada.

 

E o pior não era cada pingo em si. Era aquela quase certeza da próxima gota serena. Era aquela quase dúvida do fim das gotas. E no fim das contas, o balde, coitado, não tinha nada a ver com a história.

 

Agora fica ali, angustiado. Rezando para não transbordar aquele mar em conta-gotas. Meu Deus, aquilo era uma tortura para o coitado. E o pior de tudo... O pior de tudo é que ele não tinha nada a ver com a história.

 

Vai acabar sobrando pra ele, o coitado. Não tinha nada a ver com a história e vai pagar o pato.

 

Você tira pelo peso dos passos do dono da casa. E cada passo mais forte a cada gota. E cada gota mais perto da boca do balde, coitado. Só de pensar que ele não tinha nada a ver com a história...

 

Você tira pelos pesadelos do balde. Coitado do balde. Não tinha nada a ver com a história e já sofria de sonhos premonitórios. Temia, sobretudo, pelo chute. Sim, o chute! O chute criador. Faça-se o maremoto, o caldeirão, o tsunami, o raio que o parta!

 

E partiu. Partiu meu coração... Ninguém ao menos sabe pra onde foi a gota d’agua. Deve ter fugido pelo ralo. Mas o balde, coitado, está lá, todo estraçalhado. Nem parece aquele balde...

 

Eu já disse pra você que ele não tinha nada a ver com a história?

 

 

 

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Conto do menino que imita o sinhozinho Malta para conquistar a colega da irmã

O menino pegou escondido umas pulseiras banhadas a ouro nas coisas do pai. Deduziu por alto que caberiam três de seus finos braços na circunferência daquelas pulseiras pesadas.

 

Trancado no banheiro, fez o teste: chacoalhou com força as pulseiras na altura do pulso. O resultado foi decepcionante. Nem de perto lembrava o barulho da cascavel que surgia quando o valente coronel da novela das oito fazia o mesmo gesto.

 

O menino teve a idéia de acrescentar ao pulso um grande e pesado relógio. Melhorou um pouco. Mas só um pouco. Pôs ainda uns óculos escuros do pai, quase do tamanho da cara. E avaliou que precisava caprichar no tom da voz ao pronunciar o famoso bordão que deveria impressionar a coleguinha de sua irmã, que chegaria em breve.

 

Ele treinou muito no espelho do banheiro. Até que sua musa chegou.

 

“Você não veio aqui apenas para brincar de boneca com minha irmã, durante a manhã inteira. TÔ CERTO OU TÔ ERRADO?”.

 

Uma das pulseiras caiu. As duas amigas não puderam conter os risos.

 

“Errado! Vim só para brincar com minha amiga”.

 

“Você diz que veio brincar de boneca, mas na verdade tem outros interesses. TÔ CERTO OU TÔ ERRADO?”.

 

Ele fez uma voz ainda mais grossa que na vez anterior. Mas os risos das meninas também foram ainda mais intensos.

 

“Errado! O que você está querendo dizer?”.

 

“Estou querendo dizer que você disfarça a vontade de me ver com esta desculpa esfarrapada de brincar de boneca. TÔ CERTO OU TÔ ERRADO?”.

 

“Errado! Você não se enxerga mesmo!”.

 

Ele deu-se por vencido. Três vezes errado e as gargalhadas humilhantes das meninas. Naquela noite, ele foi dormir mais cedo. Para não ver a novela das oito...

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Conto do boneco do ninja branco

Separou-se da mãe, ao ver a prateleira dos brinquedos. Braço esticado, conseguiu pegar num boneco ninja branco. Estava num invólucro de plástico. Lacrado.  Ele poderia retirar o boneco?

 

Retirou.

 

E divertiu-se com a imensa combinação de movimentos que o brinquedo era capaz de fazer. Muito parecidos com suas ações no desenho animado. Era o ninja branco! Muito poderoso!

 

A mãe estava na sessão de frutas e verduras, quando deu fé da ausência do filho. E ele já armava um barbante de uma prateleira a outra, para que o ninja pudesse escorregar, quando deu fé da ausência da mãe.

 

Ele pensou: Cadê mamãe? Para onde ela foi? Eu estou sozinho. Eu não sou o ninja branco. Quem vai cuidar de mim? Quem pode me ajudar? Eu estou perdido. Ela vai me encontrar?

 

Ela pensou: Meu filho... Onde você se meteu? Cadê você? Ah, meu Deus... Se alguma coisa acontecer, eu não vou me perdoar. Você é tudo pra mim! Meu anjinho, cadê você?

 

Ela procurou por ele na seção de brinquedos. Mas ele já estava procurando por ela na seção de frutas e verduras. E não se cruzaram pelo caminho.

 

Após alguns minutos e lágrimas, uma voz feminina e pausada surgiu no alto-falante:

 

“Atenção, senhora Cecília, seu filho encontra-se na Gerência”.

“Atenção, senhora Cecília, seu filho encontra-se na Gerência”.

 

Ele estava sentado. Os olhos ainda úmidos e assustados.

 

“Meu filho, eu estou aqui. Não chore mais”.

“Mãe!”.

“O que foi?”.

“Compra pra mim o ninja branco?”.

 

Ela não tinha dinheiro. Mas dividiu no cartão. Sete vezes sem juros...

 

E quis dizer, mas não teve coragem: “Meu filho, você é meu ninja branco!”.

 

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Conto da conversa entre Fofão e Pinóquio

Esquecido numa estante longínqua, o boneco repousava entre mil brinquedos amontoados. Uma espada perdida alfinetava-lhe a vultosa bochecha, enquanto pequenas peças de um jogo de tabuleiros emaranhavam-se nos longos cabelos vermelhos do boneco, que também se viam entre suas mãos e pés.

 

“Você não é daqui, estou certo?”, perguntou-lhe um vizinho de enorme e pontiagudo nariz.

“O quê? Você falou comigo?”.

“Sim. Falei com você”.

“Mas bonecos não falam!”.

“Pois você não está falando? Vai dizer que não é boneco?”.

 

Estava certo. Mas como pode? Ele, que nunca soube de si, agora estava ali: conversando, pensando, vendo o mundo como ele nunca fora. “Não está certo. Isto não é para nós”, argumentou. Achava que sua função limitava-se a existir, simplesmente. Estar ali naquela estante, inerte, até que alguém o tirasse de lá, o jogasse no lixo, o doasse para alguém. Mas que nada disso fosse de seu conhecimento. 

 

O companheiro refez a pergunta.

 

“Você não é daqui, estou certo?”.

“Não sei. Não era pra saber. Nem pra não saber. Estou muito confuso”.

“Você apenas passou a saber que existe. Que mal há nisso?”

“Era melhor como antes. De que vale o pensamento sem a vida?”.

“Como assim?”.

“Não somos nada. Ninguém sabe da gente”.

“Eu sei”.

“Mas você não passa de um boneco”.

“E você, não?”.

“Escuta aqui, foi você que fez isso comigo?”.

“Eu não fiz nada. Apenas perguntei e você respondeu”.

“Pois não era pra ter perguntado. Quem mandou?”.

“Você respondeu porque quis, seu cabeludo!”.

“E você, narigudo?”.

“Bochechudo!”.

“Mentiroso!”.

 

Este último adjetivo destampou-lhe ainda mais as emoções. Deu-se por vencido o bochechudo. E chorou. Ele, que nunca fora ninguém, agora sabia disso. Não poderia haver pior castigo. Então respondeu desesperançosamente ao amigo narigudo:

 

“Não, eu não sou daqui...”.

 

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